Quando a conscientização sobre a exploração sexual de meninas não é opcional


Amanhã meu irmão caçula Pedro faz 33 anos. Como presente para ele, escrevo este texto.

O Pedro tinha quatro anos de idade quando se tornou meu irmão. Através de adoção, ele foi recebido em minha família, finalmente deixando para trás todo o sofrimento, abuso e negligência que vinha vivendo. (Sua história de adoção pode ser lida aqui em Inglês).


Entretanto, depois de tantos anos, pela primeira vez em minha vida percebi uma dura realidade. Entenda primeiramente, meu irmão é filho de uma prostituta. Aquele mundo de onde ele veio, estranho e distante para mim, no qual eu não cresci, o mundo profundamente acorrentado pela pobreza, marginalização, comércio sexual, abuso infantil, tráfico de seres humanos e uso de drogas; essa semana compreendi que ele também faz parte de mim. Porque esse mundo distante impactou e continua impactando minha vida também, mais profundamente do que tinha percebido antes.

A razão pela qual meu irmão não pode ver, andar, falar e não se desenvolveu como as outras pessoas, foi fortemente influenciado pelo fato de que ele nasceu no lado errado dos trilhos. Aquele aonde a escuridão é a norma; e a luz, a exceção. E dói.


Dói saber que alguém tão querido ao meu coração teve que passar por tudo o que ele passou, porque ele foi concebido dentro do ventre errado. O ventre de uma menina cujo corpo não pertencia a si mesma. A garota que poderia ter sucedido em circunstâncias diferentes. A menina que não chegou a conhecer o amor. Aquele que não está a venda.

Meu filho tem quatro anos de idade. O menino que nasceu do ventre certo. O menino que nasceu do lado certo dos trilhos. O menino que passou seus primeiros quatro anos brincando e rindo, ao invés de sofrendo, doendo e chorando. Meu filho não fez nada para merecer nascer no lar certo, tanto quanto meu irmão não fez nada para merecer nascer no barraco errado. Mas ele nasceu ali, e porque aquele barraco só conhecia escuridão, hoje ele só enxerga escuridão.


Há uma luz que é mais brilhante do que as cadeias mais escuras. E se eu pudesse voltar no tempo e guiar delicadamente aquela menina para fora da escuridão? Compartilhar com ela a boa notícia de que Deus a ama mais do que ela imagina? De que há verdadeira liberdade, aguardando para quebrar qualquer corrente?


E se eu pudesse voltar ainda mais no tempo? Ter certeza de que essa menina era amada, bem cuidada e criada com dignidade? Ter certeza de que ela tinha comida suficiente para comer, uma boa educação e um teto seguro sobre sua cabeça, de modo que não tivesse que vender-se a si mesma e gerar meninos destinados para o sofrimento?


E se ainda não for tarde demais para todas as outras meninas? Para todos os outros Pedros? E se o ciclo da escravidão puder ser quebrado para essas meninas, antes de que a dor aumente ainda mais? Antes que tire a visão dos filhos, a esperança do futuro, e a beleza da história.


Não tenho orgulho de saber que meu país, o Brasil, tem mais de 250.000 meninas escravizadas no comércio sexual. Meninas menores de 18 anos de idade. Crianças sendo vendidas. E enquanto existe a tendência de eu olhar para o outro lado, sei que lá no fundo todas elas são parte de mim, não há nós e eles. As correntes afetam todos nós.

Meu presente para meu irmão neste aniversário é a conscientização sobre meninas como a mãe que o gerou. Para que mais meninos não precisem herdar a escuridão da maneira que ele herdou.


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